
Existem problemas de saúde que
andam cercados de mistérios e mal-entendidos. A começar pelo nome. Há
pessoas por aí que sofrem com dores nos maxilares e atribuem a desdita a
uma doença chamada ATM. Vamos desfazer a primeira confusão. Essa sigla,
ou melhor, a articulação temporomandibular a que ela faz referência,
todo mundo tem. Se ela ou os músculos que a circundam estão em crise,
aí, sim, há o que se chama de disfunção temporomandibular, a DTM.
Há
mais de um tipo de DTM por trás de dores, dificuldades para mastigar ou
falar, além de ruídos ou estalos ao abrir e fechar a boca. Um estudo
liderado pela dentista Daniela Godói Gonçalves, da Universidade Estadual
Paulista, em Araraquara, no interior de São Paulo, aponta que até 40%
da população se queixa de um sintoma que remeta à sigla dolorosa. “Ela
afeta principalmente quem tem entre 20 e 40 anos e duas vezes mais as
mulheres”, observa Daniela. “Em quase 70% dos casos o problema nem está
na articulação em si, mas na musculatura ligada a ela”, estima o
dentista Antonio Sérgio Guimarães, da Universidade Federal de São Paulo.
O transtorno não apresenta causa específica, mas se acredita
que, somados a uma propensão a ele, fatores como o estresse do dia a dia
acionam a engrenagem da dor. Por essas e outras, flagrar a DTM e sua
origem nem sempre é tarefa fácil. Para tornar o diagnóstico mais
certeiro, uma saída é congregar exames, como demonstra um trabalho
recente da fonoaudióloga Cláudia Ferreira, da Universidade de São Paulo,
em Ribeirão Preto, no interior do estado. “Juntamos um questionário
preenchido pelo paciente a uma avaliação das funções dos músculos da
mandíbula e uma técnica chamada eletromiografia”, conta Cláudia. É a
combinação de tudo isso que garante uma boa investigação.
O
questionário revela o grau dos sintomas e o momento em que eles eclodem.
“Já no que chamamos de avaliação miofuncional, pedimos para o paciente
mastigar uma bolacha para analisar o trabalho da musculatura local”,
exemplifica. A eletromiografia, por sua vez, se vale de eletrodos
colados à têmpora e às bochechas para checar as contrações musculares.
“Com esses dados conseguimos não só detectar o problema mas também
monitorar melhor a resposta ao tratamento”, avalia Cláudia.
As
disfunções da mandíbula costumam trazer dor de cabeça. No sentido
figurado: não é raro perambular entre médicos e dentistas atrás do
motivo das aflições. E no sentido literal. “A DTM pode causar dores de
cabeça secundárias ou agravar enxaquecas já existentes”, acusa Daniela.
Não à toa, há quem se entupa de analgésicos, negligenciando, sem querer,
o foco do desconforto. Embora o adulto seja seu alvo, a DTM também é
capaz de atormentar crianças e adolescentes. Os estudos a respeito são
divergentes, até porque, nessa fase da vida, os sinais do problema são
mais leves e difíceis de ser detectados. “Relatos mostram que os
sintomas da disfunção são raros na época dos dentes de leite, enquanto
outros indicam uma prevalência de 16%. De qualquer maneira, o número
aumenta na adolescência”, pontua a dentista Maria Beatriz Gavião, da
Faculdade de Odontologia de Piracicaba, no interior paulista.
CALA-TE,
DOR
Apesar de complexa e rodeada de confusões, a DTM pode
ser contra-atacada. Muitas vezes o tratamento exige não apenas o
dentista, mas fonoaudiólogos, fisioterapeutas... Para nossa sorte, as
armas que enfrentam o transtorno estão cada vez mais afiadas. Se o
ultrassom já rendia bons resultados, o raio laser de baixa potência,
ainda novo nessa área, não decepciona. O aval para as duas tecnologias
vem de uma pesquisa recém-concluída na USP de Ribeirão Preto pela
dentista Thaíse Carrasco.
“O ultrassom promove um calor profundo
na região, estimulando a dilatação dos vasos e diminuindo a inflamação
local”, explica Thaíse. “O laser também surte efeito anti-inflamatório e
incentiva a liberação de substâncias que aliviam a dor”, completa. No
trabalho com 30 voluntários, a especialista provou que as técnicas
empatam em termos de eficiência. “Elas são, contudo, terapias de apoio,
ou seja, não dispensam atacar as causas do problema”, lembra.
Em
muitos casos, só uma investigação minuciosa aliada a mudanças
comportamentais desarticula a DTM. “É preciso saber se o paciente range
os dentes à noite ou os aperta durante o dia por causa da tensão”,
exemplifica o dentista André Felipe Abrão, do Centro de Estudos,
Treinamento e Aperfeiçoamento em Odontologia, na capital paulista. Só
assim dá para traçar um plano de ação contra o suplício. A participação
do paciente, aliás, é essencial. “Ele precisa aprender o que é ruim para
a sua condição e corrigir os erros”, diz Guimarães. Nessas horas, fugir
do estresse, que repercute na musculatura da ATM, já é mais do que um
bom começo.